Estamos em uma iniciação? Um convite urgente ao belo aprendizado

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icon calendar 26/10/2020
Estamos em uma iniciação? Um convite urgente ao belo aprendizado

Ao se questionar se o coronavírus serve como um rito de iniciação, Martin Shaw oferece cinco reflexões sobre o poder de decisão que vive em cada oportunidade, a alquimia da experiência e o belo aprendizado que esse momento evoca. 

Esse artigo foi originalmente publicado na Emergence Magazine e é republicado aqui, traduzido, com sua permissão, como parte da parceria com o Centro ilAli. Para conhecer mais sobre a Emergence (em inglês), visite: www.emergencemagazine.org.

Título original: Is This an Initiation? An urgent Invitation to Beautiful Learning, por Martin Shaw

Tradução: Fernanda Rocha Vidal

Aqui estamos, milhões de nós. Pequenos ermitões pipocando por todo o planeta.

É um momento único em nossas vidas. Por isso, vou compartilhar aqui cinco pequenas reflexões. 

1 – Me perguntam constantemente se a pandemia causada pelo coronavírus se qualifica como uma iniciação ou não. 

Eu diria que sim. Quando as pessoas começam a morrer, é nesse campo que entramos. Mas – se nos tornamos mais sábios a partir dessa experiência é outro assunto.

E não podemos forçar demais a comparação com uma cerimônia tribal ou comunitária. Isso porque a pandemia não é algo cuidadosamente elaborado por seres humanos profundamente experientes, mas pela terra. Muito mais amplo, ainda mais incerto.

Muitos desses rituais extraordinariamente globais (Busca de Visão etc) têm sido um ensaio espiritual rigoroso para o tipo de catástrofe real que pode abater uma cultura. São preparação para a simples velocidade de tentar se manter vivo no meio de uma tempestade carregada.

Então, por essa ótica, o rito de passagem te preparou com o tipo de astúcia necessária para compreender um momento assim. Tenho liderado vigílias selvagens por vinte anos, trabalhado com centena de pessoas nas circunstâncias mais desafiadoras e terríveis, então vivi nesse terreno por um longo tempo.

A maioria de nós não recebeu essa preparação. Mas estamos aqui, de qualquer forma. A vida faz isso, tenho certeza que você já percebeu.

Eu estou olhando para iniciação com uma lente em particular, e muitos verão as coisas de outra forma. 

Mas a guerra não é uma iniciação para o soldado? Uma profunda decepção amorosa, uma iniciação para o apaixonado? Essas experiências imensas acontecem e, esperançosamente, nos reconfiguram, em um contexto cerimonial ou não. Mas nem sempre isso acontece.

Pense dessa forma – três soldados retornam para casa: um suicida, um tenta esquecer, um busca a sabedoria. Todos viveram a experiência, mas são três respostas diferentes. Podemos dizer, então, que a iniciação é, na verdade, somente um momento em uma maturação mais abrangente necessária para desenvolver a experiência de forma saudável.

2 – Se esse momento é uma iniciação, é uma iniciação a que?

Iniciações não são genéricas, mas bastante específicas. Vejo cada lar em isolamento social como cabana alquímica. Milhões delas. Essa reclusão forçada vai gerar várias respostas diferentes. Alguns vão desejar voltar à vida como ela costumava ser, alguns vão tomar decisões que mudarão suas vidas, e assim vai. Mas ninguém, independente do que digam, pode saber, ainda, o que será. Porque o que vai se revelar, nos recôncavos secretos do seu coração, não é uma generalização. É sob medida, único.

Então talvez existe um arco narrativo geral para a experiência, mas diferentes revelações.

A mesma resposta nem sempre atende a todos. Chega de fake news da nossa pequena voz interior. Para além de todas as tentativas de, genericamente, acordarmos para a Emergência Climática, o que a intensidade dessa experiência tem a ensinar a cada um de nós? Eu não sonharia em dizer a ninguém o que isso significa para aquela pessoa.

É somente o final desse encontro que produzirá a sabedoria mais aguçada, a maturação. E é isso que deixa a maioria das pessoas nervosas. Ter que aguentar. Manter em tensão a espera. 

Eu entendo o quanto isso pode parecer assustador, que não temos o luxo desse tipo de tempo. A partir da perspectiva da vigília, entretanto, estamos apenas no segundo dia de jejum; não é tempo, ainda, de começar a contar a história do que se passa. Ao contrário, é tempo de escuta.

Claro, vamos nos aventurar com as palavras ao redor da fogueira virtual, mas devemos permitir, antes, um pouco de contemplação.

3 – Nem todas as iniciações são bem sucedidas.

De forma alguma. Se não tivermos a linguagem para abordá-la, corremos o risco de passar pela ruptura, mas não pelo êxtase. E não falo de uma perspectiva autocentrada – se não colhermos o ouro, não teremos um presente a ofertar aos outros. E se a experiência iniciatória não se converte, ao fim, em um presente aos outros, então ela não deu certo. Procure por generosidade. Procure por cortesia. Então vamos nos educar.

4 – Se você está preocupado com dinheiro, então faça uma doação, qualquer quantidade.

Muitos de nós estão perdendo o chapéu, camisa, botas, a prata da família. Então se você está preocupado com dinheiro, mude a dinâmica. Retome seu poder. Doe algum valor. Pode ser dez centavos, pode ser dez mil, mas mude a narrativa. É isso que tenho feito a cada baixa financeira que pareço sofrer a cada hora, e tem funcionado esplendidamente. Sei que isso pode soar mal, querido leitor, mas é o que tenho a dizer.

5 – O belo aprendizado: emergir ao fim do túnel como criador de louvores

Se preciso for, vamos mudar nossas vidas. Se tornar o contador de história, o criador de louvores, o cuidador das tradições, o inovador, o cientista genial, protetor de sementes, construtor de barco (por favor, continue a lista na sua própria maneira) que esse momento conjura. Se você nunca recebeu uma benção desse tipo, tente mesmo assim, e descubra, para sua surpresa, que você é silenciosamente elevado pelo simples ato de tentar. 

Bom, estou aqui talvez dando asas à imaginação, mas me perguntaram tantas vezes que precisei dizer algumas coisas. São ditas com amor, simplesmente. 

Isso é o que sei: algo urgente está tentando se revelar aos nossos corações.

Nossa resposta demonstrará a qualidade da nossa atenção e o que podemos cultivar a partir disso.

Autor e escritor:

Dr. Martin Shaw é um escritor, artista, professor e mitologista. Ele acaba de lançar seu mais recente livro: Courting the Wild Twin. Seus outros livros incluem: Wolf Milk: Chthonic Memory in the Deep Wild, The Night Wages, A Branch from the Lightning Tree, Snowy Tower, e Scatterlings. Suas traduções de poemas e do folclore celta (com Tony Hoagland) foram publicadas na Poetry International, The Mississippi Review, Poetry Magazine, Orion, e Kenyon Review. Ele é o fundador da Westcountry School of Myth (Escola de Mitos), uma comunidade de aprendizado localizada em Dartmoor, no Oeste do Reino Unido.

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