z

Reflexões sobre as necessidades, as coisas e a pandemia

icon user Conexão ILALI
icon calendar 27/10/2020
Reflexões sobre as necessidades, as coisas e a pandemia

Os ambientalistas vêm, há alguns anos, alertando sobre os níveis de consumo da nossa sociedade e a incapacidade do planeta de suportar esses níveis, assim como seus efetivos desperdícios. Alguns pensam que pode parecer muito chato ou difícil ter que se sacrificar pelo meio ambiente e chegam a se pergunta: “vou viver sem tudo que me faz feliz?”

Esse momento de pausa, ou ao menos de reflexão e mudança de hábitos que a pandemia trouxe, pode nos ajudar. Eu não acredito que as coisas, em excesso, nos fazem realmente felizes. Claro, até certo nível, precisamos do básico para sobreviver. Mas muitos estudos já mostraram que, depois desse básico, o aumento de renda (e de consumo) não aumenta a felicidade. O economista chileno Manfred Max Neef nos traz a ideia de necessidades humanas básicas e também de seus satisfadores: as formas pelas quais diferentes pessoas e sociedades buscam satisfazer essas necessidades. Exemplos de necessidades são afeto, criação, identidade, subsistência… Ele nos alerta que podem existir falsos satisfadores, como comprar algo para tentar satisfazer a necessidade de participação (pertencimento). Quem nunca, não é mesmo?

Essa reflexão sobre as necessidades básicas é muito útil para focarmos naquilo que realmente nos faz bem, que queremos para nossa vida e, dessa forma, começamos a prestarmos muita atenção em como temos tentado alcançar essa satisfação. Será que a correria, a pressão das empresas, a cultura ao meu redor, estão me movendo, um pouco inconsciente, para um consumo que não me faz bem? Talvez a gente perceba que muitas coisas não podem ser compradas no mercado e dependem da qualidade das nossas dinâmicas sociais, do nosso cuidado interno, do tempo que dispomos para nós mesmos e aqueles que amamos, do sentido do nosso trabalho e de se sentir útil para a sociedade.

Vi recentemente que no Brasil e no mundo, durante esse período, houve um crescimento muito grande dos cultivos e jardins em casa, de pequenas jardineiras na janela até hortas de maior tamanho. As pessoas estão aproveitando o tempo em casa para aprender a cultivar, mesmo que elas não pretendam parar de comprar comida, pode ser que uma nova relação com os alimentos se forme! Outras amigas me falaram que estão com a pele mais bonita justamente agora que pararam de usar maquiagem todo dia. E as crianças, que estão mais felizes almoçando junto aos pais do que quando eram levadas a lanchonetes no shopping? Muitas pessoas voltaram ou aprenderam a cozinhar em casa, notando assim uma redução nos gastos e um prazer que não conheciam. Então eu gostaria de deixar essa reflexão: nesse período de isolamento, o que tem te trazido felicidade e não dependeu de consumo (ou dependeu de uma mudança da forma de consumir)? Seguindo as perguntas de Bruno Latour, quais atividades suspensas no momento você gostaria que não fossem retomadas? E quais suspensas agora você gostaria que fossem ampliadas, retomadas ou mesmo criadas do zero? Faça esse exercício com as pessoas com as quais compartilha sua casa e de repente, novos hábitos de consumo podem surgir, não de um sacrifício, mas da percepção do que realmente traz felicidade.

Como disse o Papa Francisco em sua Laudato Si: “Quando as pessoas se tornam autorreferenciais e se isolam na própria consciência, aumentam a sua voracidade: quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objetos para comprar, possuir e consumir”.

OU

“É​ possível necessitar de pouco e viver muito, sobretudo quando se é capaz de dar espaço a outros prazeres, encontrando satisfação nos encontros fraternos, no serviço, na frutificação dos próprios carismas, na música e na arte, no contato com a natureza, na oração. A felicidade exige saber limitar algumas necessidades que nos entorpecem, permanecendo assim disponíveis para as múltiplas possibilidades que a vida oferece”​.

Saiba mais:

Fernanda Vidal, coordenadora do ilAli, Centro Agostiniano em Ecologia Integral​.

    Exibindo 0 avaliações

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Obrigado por enviar seu comentário!