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Cinco práticas para ouvir a linguagem dos pássaros

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icon calendar 02/11/2020
Cinco práticas para ouvir a linguagem dos pássaros

Quando a linguagem dos pássaros apareceu na minha vida, senti que um novo sentido havia sido transplantado em mim. As vozes dos pássaros abriram uma nova dimensão da experiência sensorial. Essa expansão me atraiu para histórias do meu lar em formas inesperadas, revelando ritmos ecológicos e conexões, estimulando minha curiosidade, me impregnando com um senso de pertencimento. 

Esse artigo foi originalmente publicado na Emergence Magazine e é republicado aqui, traduzido, com sua permissão, como parte da parceria com a Casa Gaia. Para conhecer mais sobre a Emergence (em inglês), visite: www.emergencemagazine.org.

Título original: Five Practices for Listening to the Language of Birds, de David G. Haskell

Tradução: Fernanda Rocha Vidal

A prática de ouvir outras espécies é a “realidade aumentada” original. Ao abrir nossas mentes para a linguagem das espécies, vivenciamos conexão e significado que transcendem, em muito, qualquer coisa oferecida pelo simulacro eletrônico. Por que de forma tão profunda? Porque a atenção à fala de outras espécies é nossa herança, transmitida por uma linhagem de ancestrais que se desenvolveu ao longo de centenas de milhões de anos. Cada um dessas avós e avôs viveu em um relacionamento atento com os sons de outras espécies, as conversas diversas da Terra viva. 

Nossos ancestrais eram poliglotas ecológicos. Ouvir era aprender sobre comida, perigo, oportunidades, e as sutis nuances do tempo e espaço ecológicos, o conhecimento necessário a todas criaturas para que elas floresçam. Ouvir era viver e encontrar significado. A desconexão e desatenção convidavam a morte. E assim, a seleção natural fez com que a capacidade de ouvir e entender as linguagens mais que humanas estivesse no centro da nossa natureza humana. Então quando saímos de casa hoje e abrimos nossos ouvidos aos sons de um pardal, reivindicamos aquilo que é nosso por direito. Nos conectamos a significados que emergem do tempo profundo da nossa filiação na comunidade da vida.

Hoje, em um mundo atingido por crises ecológicas, nossa sobrevivência depende da nossa atenção às falas de outras espécies. Sem suas vozes para nos guiar, agimos na ignorância. Esse é um caminho incauto para uma espécie tão poderosa. Ouvir a linguagem dos pássaros, então, é um prazer que pode nos guiar para um agir correto.

Primeiro convite

Diversidade sonora

Se lambuze na diversidade acústica dos sons dos pássaros perto da sua casa. Comece hoje: faça um inventário das texturas, cadências, tons e ritmos do que você escuta na voz dos pássaros. Abandone a necessidade de “identificar” as espécies de pássaros. Use seus ouvidos como o conhecedor de vinhos usa seu nariz e boca. Abra seus sentidos aos sons, se demore neles, os compare,  usufrua de suas muitas camadas.

Segundo convite

Ritmos e mudança

Os sons dos pássaros revelam as muitas pulsações do mundo: minuto a minuto, semanalmente, anualmente, a cada década. Compare as texturas sonoras do amanhecer e do entardecer. Como  diferem, e o que continua o mesmo? Quais sons parecem particularmente sensíveis ao correr das horas? Como a fala dos pássaros é diferente dos sons de uma semana atrás? O que essa mudança te diz sobre as estações do ano? Quando a chuva molha um dia ensolarado, como dão os pássaros  voz a essa mudança? Daqui a décadas, quais sons nos lembraremos do coro diário de suas canções ao amanhecer? Desperte sua curiosidade para esses vários ritmos, primeiro ao ouvir, depois ao fazer esses questionamentos. O ar vibra cheio de histórias.

Terceiro convite

Materialidade

Os sons dos pássaros estão ajustados ao espaço que os cerca. Uma floresta frondosa, um cânion, a costa abatida pelas ondas, uma rua na cidade: o som flui e ressoa de forma radicalmente diferente em cada um desses espaços. Nas vozes dos pássaros, ouvimos as diversas materialidades do mundo, cada espécie adaptada ao seu lar. Como os pássaros do topo das árvores diferem daqueles que se escondem na grama? Quando você vai do campo à cidade, repare em cada local a natureza da voz dos pássaros em relação a outras vozes, da grama, água, motores. Escute a diversidade material do mundo a se expressar através do corpo dos pássaros.

Quarto convite

Nomes

Como nas amizades humanas, os nomes nos ajudam a conectar e lembrar, especialmente nos primeiros dias do nosso convívio. Dê nome às cinco vozes de pássaros mais comuns perto da sua casa. Então, nomeie mais cinco. Crie sua própria taxonomia de vozes ou convite um ornitólogo mais experiente para te auxiliar. O nomear não só nos conecta aos pássaros; o processo também aproxima as pessoas: “Esse som é do pardal”. “Ah sim, obrigada, consigo ouvir agora”. 

Quinto convite

Compartilhando

Conte aos outros o que você escuta. Um canto inusitado de um bem-te-vi em um estacionamento. O assobio de um pardal atrás de um arbusto – um novo som! Um silêncio onde havia um canto – uma partida, ou uma morte. A convivialidade risonha dos gansos. Especule sobre os ritmos e as estações. Ao compartilhar suas observações, você costura fios da linguagem dos pássaros à trama da conversa humana. Através das suas histórias, mentes passarinhas e mentes humanas se unem. 

Autor e escritor:

David George Haskell é o autor de The Songs of Trees: Stories from Nature’s Great Connectors (As canções das árvores: histórias dos grandes conectores da natureza, sem tradução em português), ganhador da Medalha John Burroughs em 2018 e nomeado como um dos Melhores Livros de Ciência em 2017 pela NPR’s Science Friday. Seu primeiro livro, The forest Unseen: A Year’s Watch in Nature (A Floresta Despercebida: um ano de observação na natureza, sem tradução em português), ganhou o Prêmio de Melhor Livro da Academia Nacional Americana em 2013, foi finalista do Prêmio Pulitzer em não-ficção, ganhador do Reed Environmental Writing Award e vários outros prêmios. Ele é professor na University of the South em Sewanee, Tennessee.

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