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Vida nova na primavera – Gravidez e o Coronavírus

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icon calendar 13/11/2020
Vida nova na primavera – Gravidez e o Coronavírus

Ao ter um broto de primavera em suas mãos e uma nova vida em seu corpo, Chelsea Steinauer-Scudder navega as fronteiras invisíveis entre incerteza, vulnerabilidade e alegria.

Esse artigo foi originalmente publicado na Emergence Magazine e é republicado aqui, traduzido, com sua permissão, como parte da parceria com o Centro ilAli. Para conhecer mais sobre a Emergence (em inglês), visite: www.emergencemagazine.org.

Título original: New life in spring – Pregnancy and the Coronavirus, de Chelsea Steinauer-Scudder

Tradução: Fernanda Rocha Vidal

A cada ano, quando a neve já derreteu por completo, eu começo meu ritual de andar em círculos no meu jardim pela manhã, observando o que está germinando. Há pouco mais de duas semanas, reparei que brotos haviam aparecido na cerejeira. Essa semana, o corniso, a macieira e o lilás a seguiram. Dado o clima recente, esse é o momento certo: cerca de 7 graus de noite e quase 13 durante o dia. O Sol brilha, chamando, como o canto de uma sereia,  a seiva a correr novamente por suas veias, trazendo sinais de vida nova para a ponta de seus galhos.

A cada manhã, desde então, faço minhas rondas, parando em cada árvore para examinar os brotos – bagunçados na macieira, elegantes e com escamas na cerejeira, com pontas afiadas no corniso – me alegro. E então, começo a me preocupar.

Vivo no estado do Maine, EUA, e quando a cerejeira brotou, o calendário mal havia virado de Fevereiro para Março. Cedo demais. Essa manhã haviam flocos de neve no ar, e quando verifiquei as árvores alguns minutos atrás, elas pareciam intocadas aos meus olhos amadores. Mas fiquei pensando se não sofreram algum dano. Fechei a minha mão gentilmente ao redor de alguns brotos, como se essa temporária transferência de calor do meu corpo pudesse fazer alguma diferença. A temperatura caiu abaixo de -5 graus durante a noite passada; e era -7 na noite anterior.

Tento não me preocupar. Não importa quantos pequenos botões eu consiga aquecer brevemente com minhas palmas, não vou mudar seus destinos nessa estação. O que será, será,  digo para mim. Às vezes, isso me acalma.

Ainda assim, mesmo nessa manhã fria na neve, a existência desses botões promove pequenas alegrias. E eu nunca tento me convencer a não me alegrar.

É possível que tenho pensado tanto sobre esses botões das árvores porque tenho um bebê crescendo no meu ventre; uma nova vida que é tão delicada e miraculosa que até perco o ar. Por um momento, nas primeiras semanas da gravidez, essa vida era um segredo, igualmente calado e jubiloso, entre meu marido e eu. Depois de quinze semanas, essa presença foi compartilhada com o mundo externo. Recentemente, participei de um evento na escola do meu marido, e um dos professores com o qual ele trabalha se aproximou e sussurrou, “A Chelsea está grávida!”. Não era uma dúvida.

Ainda é muito cedo para sentir os chutes ou movimentos, mas se fico parada, posso sentir essa nova vida dentro de mim. Por vezes só posso descrever como uma energia, uma luz que se expande. Nesses momentos, o regojizo parece ser a única resposta que sou capaz de oferecer.

Mas quando volto minha atenção ao mundo, existe claramente um tom de preocupação. Passaram cinco dias desse evento na escola do meu marido, e o mundo se transformou. Ele agora ensina de casa. Meu irmão está sem emprego e sem salário no restaurante para o qual trabalhou por muitos anos. Cancelamos nossa viagem ao Nebraska para visitar minha avó. Com as previsões dos hospitais chegando ao limite de suas capacidades, respiramos aliviados quando um amigo próximo da família, que recentemente sofreu um ataque cardíaco, conseguiu manter sua cirurgia para ponte de safena.

Nada disso era um problema em Fevereiro. Estávamos passando nossos telefones de mão em mão a todos que quiséssem ver a foto do meu primeiro ultrassom. 

Em seguida, estava tentando não tocar meu telefone – e muito menos meu rosto – se estava em público. 

Agora, tento não estar em público.

No melhor cenário possível, a gravidez é uma época de vulnerabilidade. Existe uma lista longa de coisas que você não deveria fazer, não deveria beber, não deveria comer. Sendo nosso primeiro filho, estamos fazendo nosso melhor para nos mantermos atualização com uma pilha crescente de livros e artigos, aprendendo sobre os estágios de desenvolvimento do feto, acompanhando todas as consultas em nossos calendários, decidindo sobre quais testes adcionais fazer, procurando conselhos sobre o plano de parto. Meu corpo está mudando – meu peso, meu nível de energia, minha habilidade de concentração, meu apetite e meu humor – frequentemente com pouca consistência ou padrão previsível.

Até agora, em meio a todas essas mudanças, eu tinha informações úteis à minha disposição. Nossas perguntas eram, de forma geral, respondidas, em parte porque grande parte dos aspectos da gravidez são bem conhecidos e em parte porque tive a sorte, até agora, de ter uma gravidez sem complicações, na qual as respostas e expectativas padrão se aplicam. O próprio fato de que a vulnerabilidade é esperada e normal para as mulheres grávidas quer dizer que podia procurar familiares e amigos que tem crianças para conselhos e apoio, o que trazia uma sensação de segurança.

Existem poucas respostas, expectativas ou palavras reconfortantes quando se trata do COVID-19. Alguns estudos indicam que ele não passa de mães para bebês antes do nascimento – boa notícia. Mas esses estudos foram realizados com poucas mães, por enquanto.

E, assim, as fronteiras entre alegria e preocupação, vulnerabilidade e segurança, se tornam mais sutis e confusas. Um estado segue ao outro que segue a outro. As árvores estão com brotos e lindas, e está nevando lá fora; minha criança cresce na minha barriga, e o mundo sofre uma parada brusca. Tenho dificuldades em separar bom senso de paranóia.

Vimos nossa obstetra ontem e eu esperava que ela nos dizesse, com a confiança da expertise, que nossas medidas de isolamento social iriam funcionar, que ao tomar medidas extras de cuidado poderíamos nos proteger e passar intactos pela tempestade, ficando totalmente saudáveis. Não foi o que ela fez. Ela nos disse que o isolamento social é para evitar a sobrecarga no sistema de saúde. “Você deve se preparar para o fato de que você provavelmente vai pegar o vírus nos próximos 12 meses”, ela disse. “E que o mais provável é que você fique bem. As informações mais recentes sugerem que não existe um risco maior de complicações ou mortes para grávidas”. 

Eu e meu marido ficamos lá, sentamos, um pouco em estado de choque. Eu não sabia dizer se me sentia pior ou melhor. Não havia pensado na possibilidade de que, mesmo fazendo tudo certo – pelo bem de nossa criança, de nós mesmos e dos membros mais vulneráveis de nossa comunidade – não faria muita diferença, não nas nossas chances de, no mínimo, ficar doentes.

E então ela perguntou: “Quer ouvir o coraçãozinho”?

E aí, deitada na maca, as preocupações se dissiparam por completo por um longo momento. Tudo que eu podia ouvir, ao ritmo de 156 batidas por minuto, era alegria, alegria, alegria. 

Autora: Chelsea Steinauer-Scudder é uma escritora do Norte dos EUA. Como parte da equipe da Emergence Magazine, ela explora o relacionamento humano com o lugar. Seus trabalhos pode ser vistos na Crannóg Magazine, Inhabiting the Anthropocene e EcoTheo Review. No momento, ela prepara seu primeiro livro.

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