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A primeira pedra

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icon calendar 25/11/2020
A primeira pedra

O que diferencia o assassinato de João Alberto Silveira Freitas dos outros 23 jovens negros assassinatos no Brasil, por minuto, é que a cena brutal foi registrada. A vítima não é um número a compor uma estatística, ele era alguém, tinha nome e família, assim como os demais. Os protestos e as manifestações de repúdio foram automáticos e necessários. Precisamos, sim, dizer cada vez mais que basta! 

No livro Brasil: uma biografia, Schwarcz e Starling nos apontam que essa lógica de violência é um nó nacional e tem uma determinação cultural profunda. Está encravada na mais remota história do Brasil, cuja vida social foi marcada pela escravidão. Acentuam as autoras que não está na lei, mas “os pobres e, sobretudo, as populações negras são ainda os mais culpabilizados pela justiça, os que morrem mais cedo, têm menos acesso à educação superior pública ou a cargos mais qualificados no mercado de trabalho”. Nesse sentido, não é uma localização geográfica o inimigo que devemos combater e muito menos atirar pedras, o que é diferente de ser responsabilizado civil e criminalmente. 

O inimigo está dentro de nós na forma de um imprinting ou um modelo mental que faz com que alguns, com algum tipo de privilégio, se autodenominem superiores. Sentem-se no direito de explorar, humilhar, constranger, violar e de apossar do outro diferente dele no quesito cor de pele, entre outros diferenciais. Não respeitam suas leis, culturas, crenças ou modos de associação. Essa conduta não é natural como espirrar, mas é algo que se aprende no seio de uma dada cultura. Tem nome de racismo, mas poderia ser sexismo, homofobia ou especismo, dependendo da vítima.  

Se ainda temos o racismo entre nós de forma estrutural e sistêmica, é porque continuamos a perpetuá-lo por meio das práticas cotidianas, desde as piadas na mesa do almoço, comentários depreciativos, a estética e papéis atribuídos aos negros pela mídia, no mundo da moda ou na voz das autoridades constituídas. Ensinar a reconhecer, respeitar e fazer valer direitos, são os tópicos que precisamos ensinar e aprender. Está aqui o nosso alvo. Não podemos tolerar ou naturalizar nenhum tipo de discriminação, preconceito ou violência por qualquer que seja o motivo. 

O inimigo não é o endereço onde o preconceito acontece e sim nas estruturas da sociedade que o aninham e nos meios que o favorecem. A pedra atirada contra o supermercado deveria ser colocada na cabeceira de nossa cama, na mesa do professor, na sala das casas, nos púlpitos, nos RH das empresas, nas tribunas, nos palanques e, para ela, deveríamos olhar todos os dias. Se o racismo é algo estrutural e sistêmico, isso tem relação com todos nós. Hoje temos condições civilizatórias de rever criticamente, e nos comprometermos com um futuro melhor e mais digno. 

Qual ideia passaremos para frente para desmontar e desfazer essa vergonha nacional? Quantos movimentos visando às próximas gerações ainda precisaremos fazer? Quais conversas precisamos ter com os nossos filhos? O sonho de Martin Luther King de ver seus “filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele”, ainda ecoa e hoje, ele grita.

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