É hora de REALMAR a economia!

icon user Conexão ILALI
icon calendar 02/12/2020
É hora de REALMAR a economia!

Por Eliza Hostin, Fernanda Vidal e Marlos Carmo

Desde o lançamento da Encíclica Laudato Si’, em 2015, o Papa vem realizando uma série de ações concretas para a criação de um mundo que cuide das pessoas (humanas e não humanas) e da Casa Comum. Em maio de 2019, o chamado foi direcionado para jovens do mundo inteiro para REALMAR a economia. Segundo o Papa, é preciso “pôr em prática uma economia diferente, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a devasta”.

A partir dessa inspiração, jovens empreendedores, ativistas e acadêmicos de 120 países começaram a se articular para mudar a economia global. Batizado como “Economia de Francisco”, em referência a São Francisco de Assis, o movimento tem ganhado força em todo o mundo. 

O evento estava inicialmente programado para março deste ano, na cidade de Assis, Itália, mas por conta da crise sanitária do covid-19 precisou ser totalmente reformulado. Aconteceu, então, nos dias 19, 20 e 21 de novembro, de forma totalmente online.

Assim como a nova economia precisa ter alma, precisa valorizar as relações, a espiritualidade, o cuidado com a criação, em especial os mais vulneráveis, também foi possível ver isso na organização do encontro. O evento foi verdadeiramente organizado de jovens para jovens, equilibrou vozes de diferentes lugares do mundo, homens e mulheres, valorizou o sutil, as artes, as peculiaridades de cada território, as emoções.

O ilAli contou com três representantes participando do evento – Eliza Hostin, Fernanda Vidal e Marlos Carmos –, que irão compartilhar um pouco dessa rica experiência. 

DIA 1, POR FERNANDA VIDAL

Já no começo do dia, fomos lembrados da mensagem da Encíclica Laudato Si, um dos documentos inspiradores do Centro Ilali: as pessoas e o planeta precisam ser o foco de uma nova economia, acima dos lucros. E, para isso, precisamos, urgentemente, lidar com as profundas desigualdades de nossas sociedade, acentuadas neste período de crise e doença.

Essa desigualdade pede a reflexão sobre a exploração que hoje é base do nosso sistema, assim como a acumulação de bens. O sistema financeiro e a economia deveriam estar a serviço de uma bela vida para todos. As pessoas não podem ser instrumentos para o enriquecimento de poucos, mas devem ter valor e dignidades próprios. Essa é a inspiração da sobriedade, simplicidade e fraternidade universal de Francisco.

Na sessão “Perfeita alegria: três propostas para deixar a vida florescer”, começamos com uma pergunta para cada um dos participantes: duas palavras que representam felicidade para você. Deixo esse convite aqui também: feche os olhos, pense em duas palavras que representam felicidade para você e compartilhe aqui nos comentários conosco!

Posso antecipar que a maioria dos participantes no evento trouxeram os relacionamentos, família, amigos, conexões, esperança como felicidade. E vários estudos já mostram que os bens materiais representam uma parcela pequena no que nos faz feliz, e só em uma pequena medida, até que algumas necessidades básicas sejam atendidas. O que medimos hoje, como sociedade, não é o que importa e acaba nos levando para um caminho errôneo, com o Produto Interno Bruto (PIB) como medida de sucesso, por exemplo. Essa conversa me faz lembrar do trabalho do chileno Manfred Max-Neef, que olha para as necessidades reais humanas. Quando olhamos para o que são, vemos que existem muitas formas não monetárias para as satisfazer. 

Na sessão, vimos 3 exemplos de iniciativas dos jovens participantes do Economia de Francisco. Um índice de felicidade infantil, que seria construído com a participação das crianças; um projeto de criação de novos mapas participativos e interativos, que reflitam o que, localmente, faz cada comunidade florescer; uma proposta para lidar com a aglomeração urbana ao criar vidas sustentáveis em cidades pequenas e médias. No centro desses projetos está a ideia de que podemos desenhar cidades e políticas públicas voltadas para a felicidade, pertencimento e inclusão, o que não é tão comum – vemos os projetos e governos ainda focados no PIB e no crescimento econômico tradicional.

Modelos de negócio para uma economia humana

Nesta conversa vimos sobre possibilidades mais colaborativas de negócios, como as cooperativas, empresas de impacto social que valorizam realmente os colaboradores e os clientes, baseado na ideia de comunhão, e o Sistema B. Ao mudar o que está no coração das empresas, que hoje representam tanto na nossa sociedade, colocando o foco em ser melhores para o mundo, temos um grande potencial de impacto positivo. E essa transição econômica pode incluir todos nós, que podemos privilegiar esses modelos em nossas compras.

Uma frase me marcou: projetos que privilegiam o bem coletivo e não bem individuais. Na Fundación Arizmendiarrieta, um dos exemplos apresentados, isso se traduz em práticas como cultura de colaboração e transparência administrativa; planos de formação, práticas distributivas e participação em resultados para todos; sistemas de gestão coletivos e atividades com a comunidade local. 

DIA 2 – MARLOS CARMO

Iniciamos o segundo dia do evento Economia de Francisco com dois ilustres representantes brasileiros, o teólogo Leonardo Boff e o padre Vilson Groh, ambos reconhecidos pela defesa dos pobres. Conversamos sobre a necessidade de construir um projeto global que inclua todos e não somente os mais fortes. Como disse Boff, “é uma ilusão enganadora pensar que somos onipotentes e esquecer que todos estamos no mesmo barco”.

Como resposta ao desenvolvimento econômico sustentável, precisamos trabalhar o desenvolvimento local, as biorregiões, valorizando as empresas pequenas e familiares, valorizando a cultura e preservando as características das comunidades. E, através das biorregiões, criar redes que se comunicam entre si.

Em seguida tivemos a oportunidade de ouvir Muhammad Yunus, economista e ganhador do Nobel da Paz, que nos lembrou que destruir o planeta não é o nosso objetivo e a economia precisa ter um objetivo: o desenvolvimento da comunidade.

57% do público participante, quando perguntado, respondeu que a Educação é o principal vetor para o futuro de uma economia sustentável, e nós, do Centro ilAli, acreditamos também que é desta forma que podemos fazer a diferença.

DIA 3 – ELIZA HOSTIN

Iniciamos o dia com música, alegria e com uma sensação de que estamos todos verdadeiramente conectados.

Logo na sequência, os participantes da Vila Vocação & Lucro compartilharam uma série de ferramentas que desenvolveram para apoiar os jovens a colocar seus dons a serviço de um mundo melhor. Dentre as ferramentas estão um podcast e uma plataforma para desenvolvimento de projetos.

Participamos de uma conversa com os economistas Kate Raworth and John Perkins, onde exploramos o modelo econômico atual e como ele gera morte e alimenta inequalidades. Kate lembrou que começamos o século XXI com diversas crises – financeira, climática e sanitária, que mostraram que somos todos interconectados globalmente.

Quando olhamos o modelo donut, vemos que nenhum país do mundo hoje possui uma economia que atenda às necessidades humanas sem extrapolar os limites planetários. Por isso, somos todos países em desenvolvimento.

As crianças e adolescentes parte do Economia de Francisco também nos contaram sobre sua militância, em diferentes lugares do mundo, para garantir que as futuras gerações tenham um planeta onde habitar.

Fechamos o dia e o evento com a mensagem mais esperada: Papa Francisco! Ele nos agradeceu pela dedicação ao longo desses meses de trabalho e nos incentivou a estar na liderança da criação de um novo sistema econômico, pois as decisões de hoje irão impactar nosso futuro. Nos lembrou da importância da ecologia integral, do cuidado com a casa comum e do cuidado com os mais vulneráveis. E nos disse também para sermos corajosos, pois somos muitos em todo o mundo!

———————

Agora é hora de seguir os passos de Francisco de Assis e seguir reconstruindo a casa comum!

Se você quiser conhecer mais sobre o movimento e assistir a gravação do evento online, acesse o site: https://francescoeconomy.org/

E para mais informações sobre o movimento aqui no Brasil: https://ecofranbr.org/

    Exibindo 0 avaliações

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Obrigado por enviar seu comentário!