O aroma das árvores: cinco práticas

O aroma é a linguagem primordial das árvores. Elas se comunicam através de moléculas, conspirando entre si, atraindo fungos, repelindo insetos e sussurrando aos micróbios. O aroma também é a nossa primeira língua, uma conexão direta com nossa memória e emoções, uma herança das redes comunicativas que sustentavam as primeiras células animais. Os receptores de nossas passagens nasais estão prontos para ouvir. Temos mais de cem tipos diferentes de receptores nasais, capazes de distinguir pelo menos dez mil cheiros. A língua inglesa, e a portuguesa também, é muito módica para poder categorizar essa multiplicidade, mas nossos corpos sabem como reagir. Nossos narizes precisam, entretanto, da ajuda de nossa intenção consciente para os direcionar para o lugar certo.

Esse artigo foi originalmente publicado na Emergence Magazine e é republicado aqui, traduzido, com sua permissão, como parte da parceria com o Centro ilAli. Para conhecer mais sobre a Emergence (em inglês), visite: www.emergencemagazine.org.

Título original: The aroma of trees: five practices, por David G. Haskell

Tradução: Fernanda Rocha Vidal

Quando era criança, o meu nariz investigava todos os lugares. Passeando pelas páginas de um jornal recém impresso, os temperos em potes na cozinha, as delícias do mercado de peixe e queijos, passando pelo vapor das panelas no fogão e entre as folhas do jardim. Mais tarde, ao envelhecer, me esqueci de dedicar essa atenção. Meus olhos e ouvidos forçaram a sua auto proclamada supremacia. 

O aroma rico e complexo de um pinheiro crescendo nas montanhas do Colorado me trouxe de volta. Sentado embaixo de seus ramos, eu me reconectei com os prazeres do olfato e a curiosidade que aparece ao seguir o meu nariz. Senti que a árvore havia fluído para dentro de mim, abrigando algumas de suas histórias no meu corpo.

Desde então, os aromas das árvores têm sido meus professores e guias. Cada árvore nos oferece uma experiência sensorial silenciosa, uma conexão que une os corpos humanos e suas consciências ao mundo interno das plantas. Esse encontro é sua própria recompensa. O aroma específico de cada árvore contém histórias, passado e presente. Nossa experiência humana sensorial é um portal para o universo particular das árvores. 

Ao sentir o aroma das árvores, experimente tanto uma inspiração profunda através das narinas quanto inspirações curtas e mais fortes. Isso muda a taxa na qual as moléculas aromáticas atingem suas células sensoriais: um carinho lento ou um fluxo vigoroso. Essa combinação libera camadas aromáticas de experiência.

Primeiro convite

Em casa

Presenteie o seu nariz com um inventário das árvores em sua casa. Leve uma xícara de chá preto até o seu nariz. As folhas da Camellia, com o cheiro das montanhas do Leste Asiático. Afunde o seu dedo na casca de uma laranja. Os óleos vibrantes, que afastam os insetos. Abra o pote de canela. Quais mãos retiraram a casca dessa árvore? Abra um livro e sinta o cheiro da mistura de tinta e fibra, uma sensação enraizada em madeira de origem desconhecida. Café. Tâmaras e azeitonas. As lascas de um lápis apontado. Leite de amêndoas. A mobília de madeira, com seu odor encoberto pelo verniz. Mel, carregado de memórias aromáticas de néctar e pólen. Gin. Melado de cana. Inspire e se lembre que vivemos na floresta, mesmo quando essa verdade está velada aos olhos. 

Segundo convite

Andando pelo bairro

Procure as expressões aromáticas das árvores ao redor da sua casa. Deixe que as suas mãos ajudem. Aperte e role as folhas com as pontas dos dedos. Quais as características e disposição de cada espécie? Espinhosa ou exuberante? Reminiscente de grama, algas do mar ou temperos? Descanse suas mãos no tronco, sinta sua textura e então aproxime seu rosto. Esfregue gentilmente. Quais aromas moram nos recônditos da superfície da árvore? Essa árvore proclama sua vida interior ao mundo ou protege sua personalidade com cuidado, revelando seu odor somente em cortes ou onde um inseto a machucou? Quais árvores chegam primeiro com o vento dominante? As árvores na direção do vento liberaram seus aromas ao céu, semeando nuvens e perfumando o ar. Se vire em direção ao vento e se jogue no hálito das árvores.

Terceiro convite

Aromas no tempo e no espaço

Nós usamos os aromas para nos localizarmos. Qual é a época do ano? Olhe para as folhas. Onde estamos? Repare no que cresce do lado de fora: uma palmeira, figueiras, um jacarandá de flor roxa ou um carvalho largo. Ao se mover através das estações e da paisagem, conecte o seu sangue à mensagem das árvores. Pause, se aproxime, e sugue os odores. Aprenda que a seiva da primavera chega primeiro que as folhas, que as árvores da montanha tem uma assinatura diferente daquelas de áreas mais baixas, que a seca de verão é de um amargo simples, mas a chuva na primavera é indescritivelmente complexa. Existem ritmos e mapas a nos aguardar, a linguagem das árvores na terra. 

Quarto convite

Nossas raízes

As raízes das árvores e das culturas humanas são interligadas. As árvores estão no centro de nossas histórias de criação, significado e vida. Yggdrasil, o freixo que conecta os nove mundos nórdicos. As oliveiras das religiões abraâmicas. A figueira do Buda. Os ramos de pinho do solstício de inverno. As gigantes ceibas das florestas tropicais. As árvores habitam essas histórias não somente como metáforas, mas como lembretes que a vida humana existe sempre em relação com outros seres. Nossas conexões sensoriais com as árvores nos ensinam essa lição de dentro para fora. Quais árvores vivem em nossas histórias? Procure a fisicalidade dessas árvores. Segure-as, inspire, olhe e escute. Saboreie suas raízes, e então escave sentido. Quais convergências entre a ecologia sensorial e a cultura são celebradas em suas histórias e rituais?

Quinto convite

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Quais aromas de árvores da floresta, da nossa rua ou da cozinha podemos oferecer às nossas crianças e amigos? As histórias que contamos junto dessas experiências sensoriais fixam essas memórias, que nos servem de guias. Nenhum outro sentido se conecta tão rápido e profundamente à nossa produção de sentido e emoção. Na lateral de uma montanha, estudantes sentem o cheiro do solo argiloso e da casca dos pinheiros, e entendem que a vida do solo e a vida das árvores é uma só. Ao fogão, uma criança aprende que os prazeres da comida são as conexões entre plantas e pessoas, com histórias interligadas. Em uma esquina, sentimos o cheiro efêmero das flores urbanas e percebemos que a floresta nos abarca em qualquer e todo lugar. Quais histórias você irá compartilhar ao convidar outros a abraçar e se embebedar de árvores? 

Opinião dos consumidores

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