Afinal, o que é Ecologia e por que integral?

No dia 20 de abril de 2021 realizamos uma live com Fernanda Vidal e Aleluia Heringer com o tema “Afinal, o que é Ecologia e por que integral?”. O texto abaixo é uma compilação do que foi discutido em forma de perguntas e respostas. Você pode acessar a gravação completa da live aqui.

[Fernanda] Afinal, o que é Ecologia e por que integral?

[Aleluia] Interessante como que algumas expressões ou palavras, por serem exaustivamente utilizadas e em tão diferentes contextos, muitas vezes contraditórios, vão se esvaziando de sentido, a ponto de um dia termos que voltar e perguntar: afinal, do que é mesmo que estamos falando?

Já ouvi, imagino que vocês também, diferentes entendimentos sobre ecologia integral. “É isso”, aí vem outro e diz “mas também é aquilo”. Um terceiro resmunga “é, não se pode falar disso se não falar daquilo outro”.   

Ao nomear, estamos também elucidando, instituindo, intitulando. Damos a entender para o outro, nosso interlocutor, que estamos nos referindo a isso e não àquilo. Enquanto fazemos esse exercício, vamos elaborando a ideia: como ela se aplica no meu trabalho ou na minha vida?

Sem ter a pretensão de esgotar o assunto, muito menos de ter a palavra final, como sugere o “afinal” do título, nossa contribuição ao debate parte de leituras advindas das contribuições de muitos autores; também daquilo que tenho ouvido e refletido; intuições; a experiência de décadas na área socioambiental, tendo como campo de atuação a Educação e, nos últimos já quase seis anos, uma grande referência organizadora das ideias, que é a encíclica Laudato si’ de Papa Francisco, quando o termo Ecologia Integral se popularizou. Vamos partir da origem da palavra e de quem a cunhou, para então acrescentarmos o adjetivo integral na conversa.

A expressão ECOLOGIA foi utilizada pela primeira vez no livro Morfologia Geral dos Organismos, de autoria do biólogo, médico, artista e naturalista alemão Ernest Haeckel, isso em 1866. Há, portanto, 155 anos que essa palavra circula por aí. Ele se apropriou de duas palavras gregas – OIKOS, que significa casa, e LOGOS, que é estudo, e aplicou ao mundo natural. Ecologia, significa, portanto, o estudo da casa, do lugar onde se vive. Na perspectiva de Haeckel, a natureza era um todo unificado composto por complexos inter-relacionamentos. Fosse ela orgânica ou inorgânica, o que se via era um sistema de forças ativas. Ecologia, disse Haeckel, era a ciência das relações de um organismo com seu ambiente.

Haeckel não chegou sozinho a essa conclusão. Ele se apoiou no ombro de um gigante. Isso nos lembra que sempre há um anterior a nós, sejam pessoas ou eventos. Os que nos antecedem criam as condições para as mudanças, para os retrocessos ou para deixar as coisas como estão. Isso nos leva a perguntar: se ele estava impregnado pela ideia de um todo unificado, quem o despertou para isso? quais fatores e quais influências levaram Haeckel a pensar assim?

Abra um parêntesis para lembrar que você, como educador, antecede aos seus estudantes e pode ser a inspiração para que eles e elas possam fazer as mudanças que o seu tempo irá exigir deles.

Haeckel, quando criança, vivia em constante contato com campos e florestas, em conexão com o mundo natural, além disso, ele lia os livros de alguém muito famoso na época que era Alexander Von Humbold, já 65 anos mais velho que ele. E quem era Humbold?

Uma manchete da Revista Super Interessante o define bem: O mais famoso desconhecido da ciência.  Seria leviano tentar apresentar Humbold em minutos, então fica aqui a sugestão para que você coloque esse nome na sua lista de consulta. Sugiro o livro de Andrea Wulf – A invenção da Natureza.

Aos 27 anos, como geógrafo, naturalista, pesquisador, ele embarcou em uma viagem para América Espanhola. Os relatos de Humbold mudaram, completamente, a visão dos europeus, não somente em relação à natureza, mas da América, dos povos originais, indígenas, a flora e a fauna. Suas descrições, que depois viraram livros, relacionava o uso do solo, a situação dos povos, a escravidão, as alterações no fluxo dos ventos e os impactos no ciclo das chuvas, nas secas e nas alterações climáticas. Para ele, “Tudo era interação e reciprocidade”. Aquilo que Humbold via, como descrevia, falava e desenhava, e que todos os seus contemporâneos, como Darwin, Thomas Jeferson, Goethe, tentavam se aproximar, foi a grande influência que favoreceu a construção do conceito de Ecologia por Ernest Haeckel.

Hoje quando ouvimos essas afirmações de interações, parece mesmice, lugar-comum, mas na época de Humbold eram ideias que contrariavam o pensamento vigente. Havia uma forte tradição filosófica e teológica, desde Aristóteles, que entendiam da seguinte forma: “todas as coisas são feitas para o homem” ou que “os humanos eram os senhores e possuidores da natureza”, alegavam que cada árvore que era cortada da floresta virgem tornava o ar mais saudável e ameno. Subjugar a selva era o alicerce para o lucro futuro. Conde de Buffon, nascido em 1707, considerado um dos maiores biólogos do seu tempo, acreditava que quanto mais afastado do centro de origem (Europa), os animais iam se degenerando e diminuindo de tamanho. Alexis de Tocqueville, em 1833, quando visitou os Estados Unidos, disse que era a destruição do machado que conferia à paisagem sua tocante beleza. Todas essas compreensões foram repetidas de diferentes maneiras e reforçadas por Carl Lineu, Francis Bacon, René Descartes, Montesquieu.

Ou seja, no XVIII, quando Humboldt, já maduro, ganha destaque e força no cenário científico e na sociedade europeia, estava consolidado o entendimento de que a humanidade é que melhoraria a natureza. Daí a novidade e ponto de inflexão de Humbold ao descrever exatamente o contrário do que se pregava. Suas ideias despertaram muita curiosidade além de um forte impacto no meio científico. Aqui está o pioneirismo de Humboldt, não que ele estivesse sozinho, mas foi a sua voz que reverberou e foi ouvida. Ele entrelaçou os mundos cultural, biológico e físico e pintou, naquela época, um retrato de padrões globais (WULF, 2019 p.194). Era esse “O cara” que Ernest Haeckel lia e sua inspiração ao cunhar o termo ECOLOGIA.

[Fernanda] Se por detrás da ideia de Ecologia já está contemplado e entendido, como foi dito, “um todo unificado composto por complexos inter-relacionamentos”, por qual motivo precisamos acrescentar a palavra integral? não seria redundância?

[Aleluia] Sim, porém, com o passar dos tempos, fomos paulatinamente nos afastando da natureza.

Isso não de agora, mas desde sempre, cada vez mais apoiados nas técnicas rudimentares para fabricação de ferramentas, com a ideia de progresso e desenvolvimento, entendido como acumulação e crescimento ilimitados, sob a égide do domínio e controle sobre a natureza; a intervenção crescente e manipulação, via técnica, no corpo dos outros animais. Ficamos envolvidos com a sofisticação crescente das máquinas e o conforto que elas nos proporcionavam. Com a urbanização dos grandes centros urbanos, apagamos os ciclos da natureza que regiam nossas vidas e encurtamos o tempo de recuperação do solo. A natureza, aquilo que somos e temos, pois isso não se apaga, colocamos, como se possível, algo fora e estranho a nós. E, nos últimos 200 anos, com uma potência maior das dragas, escavadeiras, motosserras, tratores e com a aceleração desse distanciamento, a ideia de ecologia como um todo integrado se esfacelou junto com o nosso próprio esfacelamento interno, e perdurou apenas a ecologia como algo restrito da biologia.  

Nos ajuda ouvir os povos originários que falam a partir de uma outra cosmogonia, que tem memória ancestral.  Ailton Krenak, traduz bem, pois são percepções simples, porém com grande lucidez que nos interpela. Diz que “fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ela é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade” (p.16). Diz que vivemos uma abstração civilizatória absurda (p.22). Que “nos falta reverência com as outras companhias que fazem essa viagem cósmica com a gente” (p.31). “Ou você ouve a voz de todos os outros seres que habitam o planeta junto com você, ou faz guerra contra a vida na Terra” (p.73).

A ecologia, com o passar do tempo, se apequenou. Esvaziou-se do seu sentido original. Repartiu e esmiuçou a natureza e os fenômenos, para melhor entendê-los e, com isso, perdeu a capacidade de perceber a relação entre todas as coisas, e isso aconteceu proporcionalmente ao nosso movimento de nos colocarmos acima e fora da natureza. Esse divórcio, de séculos, da natureza e ao extrapolarmos os seus limites, colocaram a humanidade em uma grande enrascada, uma grave crise climática, com consequências socioambientais, humanitárias, sanitárias, sem precedentes.

Quando então hoje cantamos o mantra: “Tudo está interligado, como se fôssemos um. Tudo está interligado, nessa casa comum”, estamos cantando uma ideia humboldiana, do século XVIII, que sobreviveu nos séculos XIX e XX graças a sujeitos que sempre reacendiam a chama e os movimentos que criaram.

Mas não temos dúvida de que, no Século XXI, a grande liderança que trouxe o assunto para a pauta mundial é o Papa Francisco. Se hoje, dia 20 de abril de 2021, nós, pessoas comuns, estamos aqui discutindo a importância de assegurar os contextos, as conexões e as interdependências, é graças ao impacto da Encíclica Laudato si’.

Ela não é marcante por trazer um conteúdo desconhecido até então, ao contrário, além de o mundo estar discutindo essas questões, a repercussão e alcance são devidos à voz e à autoridade política e moral do Papa Francisco. Chegou na hora apropriada quando do agravamento da crise socioambiental e no mesmo ano em que o Acordo de Paris foi assinado. Ele atualiza então…: “nunca é demais insistir que tudo está interligado (…) Isto impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos” (vs. 138 e 139).  Como estudioso que é, faz críticas severas à visão antropocêntrica presente na tradição filosófica e teológica que mencionei anteriormente. É dele a expressão, se referindo a nossa relação com a natureza: “crescemos pensando que éramos seus proprietários e dominadores, portanto, autorizados a saqueá-las. Esquecemos que somos terra” (LS104).    

Para concluir a resposta à sua pergunta. Quando falamos que algo é integral, significa que o objeto “dito integral” não sofreu diminuição ou restrição, mas que se apresenta total, completo, com todos os seus componentes e propriedades originais.  Ao dizermos “Ecologia”, o correto seria estar subentendido, como na ideia original, a integralidade das coisas. Quem cuida e estuda a Casa – OIKOS – precisa enxergar toda a casa, e incluir nesse olhar todos os seus habitantes, de sangue quente ou frio; todos os seus pertences, objetos, pessoas, entidades. Essa é a integralidade da ecologia. Não posso olhar só os jardins, os oceanos ou florestas. Também não posso focar somente o ser humano. Uma ecologia integral considera todas as relações entre esses entes. O excesso de um pode representar a falta do outro. O desperdício de um com a escassez do outro. O domínio e opressão de uma única espécie, a extinção de todas as outras. Bater recordes de safras de grãos para alimentar o gado e porcos, à custa da degradação ambiental, significa a desertificação do solo e a contaminação de lençóis freáticos. Avançar e destruir os habitats dos animais silvestres levará a um desequilíbrio, inclusive ao aumento das zoonoses nos centros urbanos, como a que estamos vivendo com a Covid-19. A propósito, os germes ou os patógenos sempre estiveram ao lado do Sapiens, desde que teve início a domesticação dos animais, contudo o contexto é outro. O sem limite do desenvolvimento, a sobrecarga e o esgotamento da terra e, consequentemente, a falta de alimento para outros. É esse modo de ver, descrever de que trata a ecologia integral. 

[Fernanda] A lógica que nos leva a adjetivar a ecologia é a mesma utilizada para a expressão Ecologia Profunda, Superficial?

[Aleluia] Sim. Como eu disse, o integral se fez necessário diante de uma ecologia que se fez superficial. Papa Francisco utiliza essa expressão – Ecologia aparente ou superficial. É quando, ele diz, ficamos na superfície, “para além de alguns sinais visíveis de poluição e degradação, e adotamos um comportamento evasivo que serve para mantermos os nossos estilos de vida, produção e consumo” (vs 59). Ou seja, a cor da ecologia integral não é verde. Pode ser amarela, branca, preta, vermelha, azul. Também não é sinônimo de lixeirinhas coloridas de reciclagem ou plantar uma horta. Tem tudo isso, mas é muito além disso.

O integral reclama nossa atenção para a amplitude das mudanças. Integral remete a soluções integrais que considerem as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não é mais possível darmos respostas específicas, pontuais para cada pedaço do problema. Daí não se falar em uma crise climática, outra econômica, outra social, outra sanitária, mas estamos dentro de uma única grande crise, pois ela é sistêmica e está interconectada.

No caso da Ecologia Profunda, é a mesma lógica. A expressão foi cunhada pelo filósofo norueguês Arne Naess, em 1973, inspirado nas ideias do americano, Henry David Thoreau, que nasceu em 1817 [1], um dos autores mais lidos nos Estados Unidos, no período. Quem inspirou Thoreau, que inspirou Arne Naess? Humboldt.

No livro – A invenção da Natureza, diz que que Thoreau leu os livros mais populares de Humboldt. Segundo a historiadora Andrea Wulf, nos seus livros e anotações sempre tinha rabiscado “Humboldt diz ou Humboldt escreveu”.

[Fernanda] E a educação? Muito se tem falado da inserção da Ecologia Integral no currículo, na sua opinião, como isso se dá?

[Aleluia] O que precisa ser inserido não é da ecologia integral, como se fosse algo a mais, mas uma nova forma de enxergar o objeto do conhecimento e o próprio currículo. Ecologia Integral no currículo é a abordagem, a forma de ver, e isso precisa vir de um educador, igualmente, inteiro. Não ouviremos o som dos tambores, não veremos o céu aberto, não é maquiagem, mudança de palavras ou da aparência, mas o modelo de pensamento que muda e irá repercutir nas metodologias, na didática, avaliação etc.  

Aí entramos em uma expressão que o Papa Francisco utiliza, que é da conversão ecológica, que se assemelha a uma conversão espiritual, quando o convencimento parte de dentro, quando o foco muda, a escala de valores se altera. Os estudantes percebem a diferença.

O que não falta é informação, tópicos de ensino, eixos temáticos. Eles já estão disponíveis, só estão fora do lugar, só falta o sentido. O professor é um artesão, ele fará a costura com os seus pares, supervisores, coordenadores. Promoverá encontros, aguçará a curiosidade com seus questionamentos. A ecologia integral é ver do alto e tentar entender o que liga com quê? o que é decorrência de quê?  É mais a abordagem do que itens que precisam ser vencidos ou as atividades que precisam “entrar”; mais perguntas e menos respostas; mais propostas de intervenção que fazer prova; mais experiência e contato com os problemas reais que ficar decorando quem nasceu onde e em qual data. Papa Francisco diz que (…) os conhecimentos fragmentários e isolados podem tornar-se uma forma de ignorância, quando resistem a integrar-se em uma visão mais ampla da realidade (vs. 138).

É nesse contexto de mudança no modelo de pensamento, que Papa Francisco disse a frase  muito conhecida de que “a educação será ineficaz e os seus esforços estéreis, se não se preocupar também por difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza (LS 215).

A pergunta crucial que qualquer educador deveria se fazer é: aquilo que irei levar como proposta, como tópico de ensino, ajuda a responder a quais perguntas? Faz parte de qual solução ou de qual grande problema que a humanidade precisa ou precisou resolver? Tem relação com qual Objetivo do Desenvolvimento Sustentável? com a forma como produzimos, consumimos? Qual matéria do noticiário do último ano a que eu consigo associar? O que carrega de preconceito, de xenofobia ou de valores?

[Fernanda] você poderia dar alguns exemplos para que as pessoas que estão nos ouvindo possam visualizar?

[Aleluia] Vou falar de algo que quase todas as escolas fazem, ou têm histórias de iniciativas fracassadas que é a reciclagem. O que os estudantes precisam ter de contato com esse assunto? Tenha com você suas perguntas e veja quais perguntas eles têm. Podemos pensar em inúmeras coisas, por exemplo: como se dá a produção dos resíduos em nossa sociedade; para onde vai; tempo de vida de um aterro; número de lixões ainda existentes no Brasil; de onde vem o lixo do mundo; qual o setor da economia que mais produz resíduo e por quê? Em termos de metodologias, podemos mapear o resíduo produzido pela escola, fotografar os pátios após os recreios, agendar uma visita a um aterro sanitário ou a um lixão. Nem todos se sentirão envolvidos, como tudo na vida, mas aquilo que propomos pode criar condições e levar a uma mudança de atitude, começando pela destinação correta do próprio resíduo; repensar embalagens desnecessárias, o uso excessivo de plásticos, sacolinhas. Dependendo da idade, esse assunto pode ser aprofundado com uma interlocução com o poder público: quem é o responsável pela coleta de lixo na cidade? Há alguma proposta de recolhimento de reciclados no município? Passam próximo da escola? Há cooperativa de catadores no bairro? Podemos entrevistar algum catador? Visitar algum galpão de reciclagem? Em contraposição, podemos estudar como se dá o processo de produção de resíduos na natureza. Poderemos refletir sobre os dois modelos, aquilo que a natureza faz há milhões de anos, com processos cíclicos, onde o resíduo de um é alimento para o outro; e como os humanos fazem – processos lineares e listarmos todos os problemas que isso acarreta. Tudo isso pode gerar textos, cartas, projetos de intervenção, vídeos. Será necessário entender porcentagem, ler gráficos. Sempre partindo de onde a escola está situada, ou no seu bairro.

Agora, pare e pense quanto saber será necessário mobilizar? São informações que estão disponíveis ao longo da escolaridade do estudante, de forma dispersa, como um instrumento cirúrgico que ele não sabe quando irá usar. Invertermos a ordem. Reorganizamos, percebe?

Ecologia Integral passa pela desfragmentação do conhecimento e, consequentemente, de nossa forma de enxergar. Precisamos resgatar a capacidade analítica e organizar de forma lógica informações de diferentes origens e natureza. Identificar os contextos, as conexões e as interdependências. É assim que Humboldt fazia. Começava com um detalhe ou observação e depois partia para uma interpretação do contexto mais amplo.

Nesse contexto, a Arte e experiências junto à natureza são imprescindíveis, seja dos estudantes ou do professor. A arte, pelo que ela proporciona de sensibilidade, de educação do olhar, da captação de padrões e a experiência junto à natureza, pelas experiências que proporcionam e por aquilo que aciona em nós. Escolas, em vez de levar seus estudantes para cinema de shopping, zoológicos, levem para áreas com árvores, grama, terra e, se possível, para acampar. Pelo menos uma vez, ao longo da escolaridade, isso precisa acontecer, o que já é pobre demais.

[Fernanda] Como a seu ver seria a revisão dos currículos escolares para a inserção dessa abordagem?

[Aleluia] Podemos pensar em mudanças suaves ou mais radicais, vai depender de quanto os professores estarão mobilizados e a coragem das lideranças pedagógicas. Qualquer que seja a decisão, sem pessoas convencidas da mudança, há muitas chances de não sairmos do lugar. Uma mudança suave pode vir de um professor sozinho, dentro de sua sala, na sua abordagem. Mesmo só, ele é capaz de atuar e mobilizar os estudantes para irem além. Por outro lado, um sistema inteiro, sem o engajamento dos professores, não sairá do lugar.

As lideranças pedagógicas podem e devem proporcionar essas conversas, e isso fará toda a diferença, entretanto é o professor, com suas escolhas e dos seus pares, que fará o processo, de fato, rodar. Não há o dia X, na hora H em que se dá início à inserção da ecologia integral no currículo. Muitos educadores que estão me ouvindo já fazem isso, o que é louvável, necessário e digno do nosso reconhecimento. Contudo não podemos ficar refém da existência ou não de professores inquietos, visionários, articuladores. Precisamos passar para a fase seguinte. Não dá para nos contentarmos em ter andorinhas voando sozinhas. O passo seguinte é que esse jeito de fazer escola e de lidar com o conhecimento precisa ser algo sistêmico, orgânico e que perpasse toda a trajetória escolar sem que haja quebras. Aí, sim, faremos “verão”.

A revisão de um currículo, pensando aqui no formal, aquele que está nos documentos, pode partir de várias estações e isso depende de algumas variáveis. Falarei de alguns elementos que precisam constar, independentemente do processo escolhido. Em algum momento será preciso ter a visão dos conteúdos, associados aos seus contextos, conexões e interdependências, e isso pode ser por grandes problemas, por fenômenos, por categorias; palavras-chave, pelas dez competências gerais da BNCC, ou pelas ODS. Reparem que há espaço para escolhas.

Assim como em um jogo de quebra-cabeça de mil peças. Todos se sentam ao redor da mesa e decidem: por onde iremos começar? Qual método? Normalmente, agrupam-se as peças pelo tom das cores. Em se tratando de currículo, será preciso uma leitura e marcando-se a lápis… esse assunto está aqui por qual motivo? Onde mais ele consta ao longo da escolaridade? Quais experiências a escola proporciona para o entendimento desse assunto? Está atrelado a qual grande referência? É um tópico instrumental, acessório, porém necessário?

Será preciso conversar com os pares, de preferência da grande área do conhecimento e não da disciplina. Se for um passo muito ousado, conversem dentro da disciplina e partam para a ampliação. Uma mudança suave, façam esse exercício por série/ano. Depois, no ano seguinte, troquem figurinhas entre as séries.

Identifiquem as peças do quebra-cabeça. Já presenciei equipes de série/ano fazendo isso, utilizando todo o quadro branco. Foram criando um único desenho daquilo que iriam propor para os estudantes. A visualização permitiu identificar tempos deslocados e tópicos repetidos, ou então conteúdos que ajudariam na primeira etapa e não na terceira. Aquele conteúdo, antes apenas um instrumento isolado, ao se juntar com outros, mostrou-se potente para resolver problemas maiores.

Esse é um trabalho custoso, porém gratificante. Hoje temos plataformas ou ferramentas de planejamento, com inteligência artificial que podem nos ajudar a implementar uma nova lógica. Ao desfragmentar o currículo, iremos dar conta das repetições das peças, das mesmices das metodologias, dos excessos, e nos daremos conta de que, para determinado assunto, os estudantes viram o mesmo filme ou documentário três vezes! Por outro lado, nos daremos conta de que questões importantes estavam de fora, inclusive abrir espaço para a participação dos estudantes, coisa que o modelo atual não comporta.

[Fernanda] E o currículo oculto, aquele que não está escrito, mas acontece?

[Aleluia] Esse exercício provocará mudanças em cadeia e nos levará a sermos mais criteriosos com todos os aspectos que cercam a educação escolar. Por exemplo: os livros didáticos (seriam mesmo necessários? Opcionais? Trabalhar com fontes bem qualificadas, selecionadas e disponíveis na internet, não seria melhor?); o texto que escolho ou o filme que sugiro, reforçam e naturalizam a visão antropocêntrica em relação às outras espécies? Naturaliza o preconceito, o racismo, a xenofobia?

Avanço um pouco mais e passo a observar a escola: seu prédio; estrutura administrativa e pedagógica; relação com as pessoas. Tudo isso dialoga com aquilo que estamos estudando, descobrindo, denunciando e anunciando?

Agindo assim, caminharemos para aquilo que Papa Francisco chama de uma Cultura ecológica, que ele define como um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade (vs111).  

Isso é um currículo na perspectiva da ecologia integral. Perguntar-nos pelos fins e o sentido de tudo [2]. Você pode entender de outra forma, mas prefiro me aproximar daquilo que o Papa orienta e que sustenta tudo que foi dito até agora. Ele diz de uma “disposição para fazer perguntas profundas a respeito dos próprios fundamentos da nossa vida, de nosso modo de vida moderna, científicos, industriais, orientados para o crescimento.

[Fernanda] Para encerrarmos essa entrevista, haveria algo que você queira destacar ou chamar a atenção?

[Aleluia] Chamo a atenção para essa chave de compreensão – ecologia como um pensamento/uma lente que nos permite enxergar, dentro de uma determinada dimensão, aquilo que se vê.

E aí volto para o mestre dos mestres e lembrar de sua visão integral.  A todo momento, fariseus e doutores da lei e da tradição de Moisés tentavam pegar Jesus nas minúcias da Lei, no regimento, nos detalhes, e ele respondia: Ouviste o que foi dito? Eu, porém, vos digo… A ecologia integral é um chamado para o “eu, porém, vos digo”. A questão não é se devo ou não curar no sábado, mas enxergar o humano que será curado e aí entender que o sábado foi feito para o homem e não o contrário. Essa é uma visão abrangente, de contexto e de identificação das interdependências. Jesus, quando via a multidão, sentia compaixão, pois entendia o contexto de opressão, de miséria, de doenças e então ele agia, ou multiplicando os pães, ou curando ou falando “levante-se e ande, sua fé o salvou”. Quer aprender sobre ecologia integral, repare como Jesus andava, como via, como ouvia, o que falava e como vivia. 

Quer saber o que é ecologia integral? Olhe para o Papa Francisco. Ele percebe, vê, fala, escreve e vive de forma íntegra e integral aquilo que chamamos de ecologia. Sendo integral, ela não pode ser somente verde, somente humana, somente animal, mas enxerga todas as conexões ao mesmo tempo: a devastação de uma floresta, do mangue, o assoreamento dos rios, irão impactar diretamente a vida das pessoas, o clima, a safra, o aumento dos preços dos alimentos, a dispersão por conta de eventos climáticos extremos. Papa Francisco diz que os problemas da pobreza e da degradação ambiental estão ligados. Nesse trecho, chama a nossa atenção para as “estruturas mais amplas de economias” que não são orientadas para objetivos verdadeiramente morais, que sustentam a vida”.  Operar na perspectiva da ecologia integral é ter não apenas uma postura crítica de denúncia, mas também de anúncio, pois ela é prenhe de esperança.

Talvez seja essa a razão de ser tão difícil entender a ecologia integral, pois o “eu, porém, vos digo” é uma fala que aponta para um jeito de ser proveniente de uma conversão ecológica, uma mudança no modelo de pensamento.

Educadores, não encontraremos a ecologia integral para ser aplicada nos currículos ou nos programas, pois ecologia integral é um jeito de ser que reflete nas escolhas, nas abordagens, nas metodologias, nas parcerias. A ecologia integral está dentro de você.


Notas:

[1] 48 anos depois de Humboldt

[2] Não nos resignemos, nem renunciemos a perguntar-nos pelos fins e o sentido de tudo” (LS 113).


Sobre as participantes:

  • Aleluia Heringer é doutora em Educação (UFMG), Diretora de Ecologia Integral, Responsabilidade Corporativa e Relações Institucionais da Sociedade Inteligência e Coração (SIC) e articulista do Pensar Educação em Pauta (UFMG) e ANDA – Agência Notícias de Direitos Animais. 
  • Fernanda Vidal é mestre em Economia para Transição, pela Schumacher College, e é Coordenadora do Centro Ilali, iniciativa agostiniana para ecologia integral. Procura ver as interligações teóricas e práticas para um mundo mais justo e ecológico, através do encantamento com a vida.

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